Desconfiado e meio cabisbaixo, ele adentrou na Biblioteca Pública após ter comido alguns pastéis na esquina, eram quase 16h. Sentou na primeira cadeira que viu, à direita da entrada principal, pernas cruzadas, mãos ao queixo - um pensador.
Quem olhava o via intelectual, sobretudo pelos livros a tira colo A rosa do Povo, de Drummond, Madame Bovary, de Gustave Flaubert, Meu pé de Laranja Lima, de Luiz Mauro de Vasconcelos, dois livros sobre política mais O Capital, de Karl Marx, um bloco de rascunhos, três canetas de cores diferentes. Ali, parado e pensativo, procurava encontrar a razão para tantos fracassos, para tantos insucessos no amor e para outros tantos vazios que na vida a gente passa.
Homem de meia idade. Leitor de bons livros, admirador da arte e da boa música; um míster de qualidades para o marido dos sonhos, mas sem tanta fé em si mesmo e quase nenhuma no poder de amar.
Um descrença crônica sobre sua própria capacidade de amar.
"Talvez" - ele sempre pensava assim. Adorava as possiblidades mesmo sem possuir a coragem para experimentá-las... permaneceu inerte, congelado na cadeira da biblioteca por um bocado de minutos, pouco mais de uma hora, até que seguido de um leve toque em seu ombro esquerdo, ouviu:
- Tadeu?
Tadeu ficou estático, sem saber responder à voz outrora tão familiar. Era Emília, sua ex-companheira que há tempos não via. Após passar a mão nos cabelos, como sempre fazia quando nervoso, engatinhou algumas palavras:
- ''Oi, Emília, como vai?''
- ''Bem, e você? Ocupado?''
- ''Não, não... er.. quer dizer'', falou com a mãos novamente no cabelos - estou, estou tentando ler alguma coisa antes de voltar pra casa...
Emília olhou os livros rapidamente, fitou Tadeu nos olhos e disse:
- ''Quem bom que está lendo, sinal que está produzindo!'' Falou com um espírito de mãe conferindo o dever de casa.
- ''Eu sempre leio. Como você sabe... algumas coisas não mudam!"
- Ainda vai escrever o livro?
- ''Sim'' - numa palavra seca Tadeu respondeu.
- Bom
(...) aquele silêncio mortal.
- Então tá
- É
- Foi um prazer, agora eu tenho que ir, tô atrasada pra ginástica...
- Malhando agora?
- Sim
- Bom
- Até mais
- Até
- ''Me manda uma cópia do livro quando estiver pronto, hein...'' falou alguns metros a frente...
Tadeu respondeu com um sorriso amarelo e com o dedão levantado num gesto positivo e pôde ouvir de longe o celular de Emília tocar, era alguma amiga talvez, mas para ele, ali, naquele momento, podia ser o Brad Pitt.
Sem hesitar catou os livros e saiu em disparada na direção do ponto de ônibus mais próximo, pois estava difícil respirar o ar daquele lugar após um encontro tão inusitado. Tadeu nunca foi bom com situações constrangedoras (ainda que apenas pra ele), não tinha a manha para driblar o nervoso e a estupidez que lhe caíam nessas horas. Frequentemente cometia gafes na frentes dos outros, o que rendia boas piadas para seu grupo de amigos tão seletos.
A auto confiança de Emília parecia emanar mais forte do que o seu próprio perfume e era isso o que mais perturbava Tadeu. De alguma forma ele esperava que ela chorasse por ele eternamente, sobretudo, para que pagasse pelo fim de uma relação de doze anos - o amor que tinham era de vidro e se quebrou.
E essa era a grande vergonha que Tadeu não conseguia admitir: ele não soube se amar.
[...]
Não muito diferente Tadeu sentou-se na primeira cadeira que viu, dessa vez não mais um pensador. Suas pernas tremiam, descontroladas de raiva, de ciúme, de qualquer coisa. Mas o que Tadeu tinha de nervoso após encontrar Emília ele também tinha de aliviado. Talvez um alívio aparente por ter se saído bem ao reecontrar quem tanto lhe feriu o coração, alívio por não ter dado lugar a culpa ou ao remorso.
Enquanto alcamava suas pernas, ele via seus ônibus passar e já nem se importava, pois resolveu que ali seria seu marco. Um recomeço. Decidiu não omitir suas próprias acusações que lhe vinham em forma de lembranças que cambiam dentro de um ''se'' e mais ainda dentro do ''talvez'' que ele tanto apreciava.
Seu vício na verdade era a sua própria vontade de ser o senhor de sí mesmo, o chefe, o patrão, o amado, o cabeça, o pendão da esperança - tolice! Resumiu numa palavra, mais alguns minutos já se passavam.
Duas jovens mulheres tinham seus filhos atados às mãos. O garoto mais novo sorriu para Tadeu - ele não tinha cara de homem mal - e Tadeu, instantaneamente, sorriu de volta. Sorriu para fora e sorriu para dentro. Naquele sorriso, naquele instante, deu um salto e pôs-se de pé, tomou a primeira condução que parou ao seu aceno desesperado.
Um sensação de adrenalina lhe subiu as veias e ele não quis sentar por um instante. Guardou o troco da passagem. Observou, olhou atentamente. Era outro homem aquele, mas decidido a brincar com o acaso da vida, com as variedades de escolhas.
Analisou as possibilidades (vejam só).
Duas adolescentes falavam alto sobre o que rolara na noite anterior. Uma vó levava três netos de volta do colégio. A moça ruiva ouvia seu mp3, uma loira jogava conversa fora com o motorista... e Tadeu procurava onde sentar descartando, obviamente, sentar ao lado de algum homem.
Olhou para a parte de trás do ônibus e viu uma jovem com um livro na mão. Tadeu não conhecia tamanha serenidade. Algo repetia em sua mente:
- Senta ao lado da que está lendo, Tadeu... vai.
Quem olhava o via intelectual, sobretudo pelos livros a tira colo A rosa do Povo, de Drummond, Madame Bovary, de Gustave Flaubert, Meu pé de Laranja Lima, de Luiz Mauro de Vasconcelos, dois livros sobre política mais O Capital, de Karl Marx, um bloco de rascunhos, três canetas de cores diferentes. Ali, parado e pensativo, procurava encontrar a razão para tantos fracassos, para tantos insucessos no amor e para outros tantos vazios que na vida a gente passa.
Homem de meia idade. Leitor de bons livros, admirador da arte e da boa música; um míster de qualidades para o marido dos sonhos, mas sem tanta fé em si mesmo e quase nenhuma no poder de amar.
Um descrença crônica sobre sua própria capacidade de amar.
"Talvez" - ele sempre pensava assim. Adorava as possiblidades mesmo sem possuir a coragem para experimentá-las... permaneceu inerte, congelado na cadeira da biblioteca por um bocado de minutos, pouco mais de uma hora, até que seguido de um leve toque em seu ombro esquerdo, ouviu:
- Tadeu?
Tadeu ficou estático, sem saber responder à voz outrora tão familiar. Era Emília, sua ex-companheira que há tempos não via. Após passar a mão nos cabelos, como sempre fazia quando nervoso, engatinhou algumas palavras:
- ''Oi, Emília, como vai?''
- ''Bem, e você? Ocupado?''
- ''Não, não... er.. quer dizer'', falou com a mãos novamente no cabelos - estou, estou tentando ler alguma coisa antes de voltar pra casa...
Emília olhou os livros rapidamente, fitou Tadeu nos olhos e disse:
- ''Quem bom que está lendo, sinal que está produzindo!'' Falou com um espírito de mãe conferindo o dever de casa.
- ''Eu sempre leio. Como você sabe... algumas coisas não mudam!"
- Ainda vai escrever o livro?
- ''Sim'' - numa palavra seca Tadeu respondeu.
- Bom
(...) aquele silêncio mortal.
- Então tá
- É
- Foi um prazer, agora eu tenho que ir, tô atrasada pra ginástica...
- Malhando agora?
- Sim
- Bom
- Até mais
- Até
- ''Me manda uma cópia do livro quando estiver pronto, hein...'' falou alguns metros a frente...
Tadeu respondeu com um sorriso amarelo e com o dedão levantado num gesto positivo e pôde ouvir de longe o celular de Emília tocar, era alguma amiga talvez, mas para ele, ali, naquele momento, podia ser o Brad Pitt.
Sem hesitar catou os livros e saiu em disparada na direção do ponto de ônibus mais próximo, pois estava difícil respirar o ar daquele lugar após um encontro tão inusitado. Tadeu nunca foi bom com situações constrangedoras (ainda que apenas pra ele), não tinha a manha para driblar o nervoso e a estupidez que lhe caíam nessas horas. Frequentemente cometia gafes na frentes dos outros, o que rendia boas piadas para seu grupo de amigos tão seletos.
A auto confiança de Emília parecia emanar mais forte do que o seu próprio perfume e era isso o que mais perturbava Tadeu. De alguma forma ele esperava que ela chorasse por ele eternamente, sobretudo, para que pagasse pelo fim de uma relação de doze anos - o amor que tinham era de vidro e se quebrou.
E essa era a grande vergonha que Tadeu não conseguia admitir: ele não soube se amar.
[...]
Não muito diferente Tadeu sentou-se na primeira cadeira que viu, dessa vez não mais um pensador. Suas pernas tremiam, descontroladas de raiva, de ciúme, de qualquer coisa. Mas o que Tadeu tinha de nervoso após encontrar Emília ele também tinha de aliviado. Talvez um alívio aparente por ter se saído bem ao reecontrar quem tanto lhe feriu o coração, alívio por não ter dado lugar a culpa ou ao remorso.
Enquanto alcamava suas pernas, ele via seus ônibus passar e já nem se importava, pois resolveu que ali seria seu marco. Um recomeço. Decidiu não omitir suas próprias acusações que lhe vinham em forma de lembranças que cambiam dentro de um ''se'' e mais ainda dentro do ''talvez'' que ele tanto apreciava.
Seu vício na verdade era a sua própria vontade de ser o senhor de sí mesmo, o chefe, o patrão, o amado, o cabeça, o pendão da esperança - tolice! Resumiu numa palavra, mais alguns minutos já se passavam.
Duas jovens mulheres tinham seus filhos atados às mãos. O garoto mais novo sorriu para Tadeu - ele não tinha cara de homem mal - e Tadeu, instantaneamente, sorriu de volta. Sorriu para fora e sorriu para dentro. Naquele sorriso, naquele instante, deu um salto e pôs-se de pé, tomou a primeira condução que parou ao seu aceno desesperado.
Um sensação de adrenalina lhe subiu as veias e ele não quis sentar por um instante. Guardou o troco da passagem. Observou, olhou atentamente. Era outro homem aquele, mas decidido a brincar com o acaso da vida, com as variedades de escolhas.
Analisou as possibilidades (vejam só).
Duas adolescentes falavam alto sobre o que rolara na noite anterior. Uma vó levava três netos de volta do colégio. A moça ruiva ouvia seu mp3, uma loira jogava conversa fora com o motorista... e Tadeu procurava onde sentar descartando, obviamente, sentar ao lado de algum homem.
Olhou para a parte de trás do ônibus e viu uma jovem com um livro na mão. Tadeu não conhecia tamanha serenidade. Algo repetia em sua mente:
- Senta ao lado da que está lendo, Tadeu... vai.












1 comentários:
Muito bom o conto! Em especial o final. "Senta ao lado da que está lendo Tadeu", ótimo!
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