domingo, 4 de setembro de 2016

EPÍLOGO



Precisamos chegar a um consenso. Estamos deixando de dizer o que precisa ser dito. Estamos adiando a dor para que ela cresça às escondidas e se torne maior que a chance do recomeço.

Está sacramentado nesse silêncio o comum acordo de que não damos mais certo. Já não há lugar para o que era simples. Não há mais disposição de rir das mesmas besteiras que víamos na televisão. Os banhos já são alternados, assim como os lados da cama viraram espaços estranhos. Muro vizinho.

Como a tristeza de um sábado à noite em casa, com dinheiro na carteira, com os convites de amigos, com os ingressos do show, com carona pra buscar e pra deixar em casa depois. Mas sem o desejo de sair do lugar.

Não saímos mais um para o outro.

Evitamos os mesmos ambientes da casa construída. E não há mais compromisso em nos sentarmos à mesa para as refeições. Temos a burocracia de pagar as contas mensais sem a leveza do primeiro beijo como bom dia.

Somos já os poemas em papel amassado nos bolsos dos poetas. Versos que não saem do caderno. Vergonha do que fomos. Entraremos para as estatísticas e seremos mais uma troca de nome no cartório. Dessa vez   sai um nome da pele.

Seremos a dúvida dos amigos na hora dos futuros convites, pois eles terão receio dos nossos próximos encontros. Vamos dividir todos ao redor em dois times. Caberemos separados no mesmo mundo.

Iremos à forra na festa do estranhamento, dançaremos a sincronia da desintoxicação. Seremos para nós o que prometemos nunca ser. E fim.

 
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