quarta-feira, 22 de março de 2017

os poetas da minha geração



a minha geração tem poetas que não rimam
escrevem por conta própria
à caneta à lápis à tinta
esses incontidos não medem distância
não almejam desistências
todos se encontram fora e dentro
das universidades

gosto da parcela que escreve e se lambuza
e muito pouco ou quase nada
da parcela que mal escreve
mas que disseca o poema
feito sapo gordo que
fugiu de um banho de sal

os poemas da minha geração não
são relíquias dos seus autores
são palavras dos outros
para o outros
para os trouxas, também

os poetas da minha geração andam de busão
pedalam e vendem seus folhetos
para os transeuntes da cidade

os poetas da minha geração não esperam aplausos
eles colocam no poema palavras não romantizadas
pneumotórax pterodáctilo traumatismo
e assim vão

os poemas da minha geração
não tem poetas
e os patetas da minha geração
não leem poemas

caminhamos livres e tímidos
envoltos em sonhos e gritos
e nos encontramos fortes

nas soleiras das casas
na fumaça dos cigarros
e nos nossos poemas
que falam
de amor.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

noite



gosto da noite
que não acaba
trabalho
com o cheiro
da moça
na barba
deito
com o gosto
da moça
na língua

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017



antes era sempre pensamento e receio. por onde chego se não é meu, todo o restante está entregue, mas será que o furo me impõe tanto pudor assim? muitos rodeios e pormenores. dedos sempre tímidos brincavam com os relevos vizinhos. o nariz já havia lhe sentido de perto algumas vezes. uns mais rígidos, outros mais fluídos. nenhum transposto. sempre o caminho mais grato, mas lambuzado. agridocemente prazerosa, a vagina. sempre tão amiga, houve enfim a traição. eu que nunca me fizera apertado, todavia sem proeza, jurava pela vulva nunca me importar com as rugas. lancei mão da cerimônia, dos afãs e bons costumes, foda-se. toda fruta tem no oco o seu veneno.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

garganta



basta pouca coisa pra nos fazer parar. dois dias de folga com uma viagem a João Pessoa ou Recife no planejamento, mas uma crise de garganta coloca você plantado em casa. muito sol ou muito frio atingem. muito gelado ou muito quente descem rasgando. ver a primeira temporada de strangers things foi o ponto alto, entre monstros e desafios em the witcher III. agora, boys II mans cantam nesse fim de noite, com pizza gelada, um vinho morto de espera. após os 30, você não tem muita paciência para correr atrás, é pagar pra ver. o risco não incomoda, mas a indiferença afasta. a semana começa mesmo na segunda e o que vem pode ser bem melhor.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

31.1



você me disse que quer escrever um livro. revelou que sempre quis, mas não sabe por onde começar. você poderia plantar uma árvore ou ter um filho. ambos são mais fáceis. mas nos três casos estamos falando do que colocamos no mundo. a gente não sabe quando ou onde vai acontecer um encontro com nosso verdadeiro eu. tudo evapora na metáfora de que a vida precisa de fluxos ou ciclos. talvez. na sua árvore genealógica muita gente foi plantada. na ausência de livros seus pais plantaram gente no mundo. você tem sementes diferente. prepare o solo e regue. isso te basta.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

23.1


chama o uber e traz o que mata a fome. não traz salgado, venha salgada. quero pouca recomendação. aliás, que não venha prescrita muito menos sob medida. o que a gente sente não tem fórmula. é com o colchão no meio da sala, sem pedir que fechem as janelas. se possível que os olhos vizinhos estejam atentos à total depravação. corpo não tem rota. você sabe o endereço, já anda pela casa despreocupada apenas com a parte de cima. corro para fechar a porta, por que às vezes não quero dividir. a minha língua é possessiva. só quando amanhece é que precisamos ser personagens.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

22.1


é sempre a nossa brincadeira preferida: fazer planos perfeitos para um domingo de folga. os planos pedem que acordemos cedo, que a mochila esteja pronta e o protetor solar fator 50 esteja em dia, não se pode esquecer a calibragem dos pneus, mesmo que seja do nosso fusca branco 1976. é assim que a gente contorna a rotina da semana - com planos extraordinários. é o nosso rito de passagem. viramos folhas e mais folhas de um calendário invisível. quem nos ensinou a contar o tempo? e mesmo assim contamos. apesar de tudo, brincamos de possuir o que goteja. a chuva me namora. a oportunidade é vento que esfria a maçã do rosto. quem tem amigos tem uma porção de coisas chuvosas. já é segunda?

domingo, 22 de janeiro de 2017

21.1



fica na língua todas as perguntas. tinto ou seco? a malícia surge como prêmio, como um calafrio que estava ali escondido sob a pele e que vem à tona na loucura do seu toque. na cama ou no chão? a leve timidez do seu corpo aponta pro anseio de estar completa. a sua voz encontra passagem pelos meus tímpanos e me leva de volta pro seu leito aonde me afogo no gosto. se te falta o encontro sobra para nós as possibilidades desse caso ser muito mais. se quer precisamos de roupas. somos o que somos quando estamos nus. a própria carne. mas hoje, ficamos eu a garrafa de vinho, esperando a sua boca.

sábado, 21 de janeiro de 2017

20.1



seu olhar se perde entre tantas telas. tudo é frágil quando é possível mergulhar ali. os gestos estão postos sobre um tabuleiro cheio de névoas. as frases se amarram de maneira subentendida, como um puro fingimento, talvez um quê de sintonia. é como àquela mentira que cabe no caminho da liberdade. cada vez que você traga seu cigarro, você morre um pouco, e, ironicamente você vive mais. tudo evapora, a nicotina, o compromisso, a rotina, o menino, a menina. é possível que este seja o charme - ninguém pode lhe ter por inteiro. isso não está permitido. são as regras desse jogo intenso que você sabe jogar muito bem. vez ou outra os passos se cruzam. muitos rostos, muitas vozes, muitos abraços. e o seu olhar é vastidão.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

18.1



hoje ouvi você dizer o quanto ficou surpresa por que outro alguém te abraçou e te confidenciou àquela frase. talvez as palavras mais esperadas pelos que se apaixonam, pelos que se desejam. 'eu te amo' é sempre bom de se ouvir. não importa se temos a intenção de retribuir. um ''eu também'' quase sempre sobe à língua, mas você apenas sorriu. abriu os lábios como quem recebe um afago do vento. talvez não foi o momento certo. poderia ser outra boca falando. poderia caber noutros braços aquele abraço. poderia, quem sabe...

domingo, 4 de dezembro de 2016

liso



escorrem os seus
cabelos
crescem
descem
lisos
feito estrada nova
passo meus olhos
andam meus dedos
tudo em linhas negras
o desejo
cumpre seu trajeto

domingo, 4 de setembro de 2016

EPÍLOGO



Precisamos chegar a um consenso. Estamos deixando de dizer o que precisa ser dito. Estamos adiando a dor para que ela cresça às escondidas e se torne maior que a chance do recomeço.

Está sacramentado nesse silêncio o comum acordo de que não damos mais certo. Já não há lugar para o que era simples. Não há mais disposição de rir das mesmas besteiras que víamos na televisão. Os banhos já são alternados, assim como os lados da cama viraram espaços estranhos. Muro vizinho.

Como a tristeza de um sábado à noite em casa, com dinheiro na carteira, com os convites de amigos, com os ingressos do show, com carona pra buscar e pra deixar em casa depois. Mas sem o desejo de sair do lugar.

Não saímos mais um para o outro.

Evitamos os mesmos ambientes da casa construída. E não há mais compromisso em nos sentarmos à mesa para as refeições. Temos a burocracia de pagar as contas mensais sem a leveza do primeiro beijo como bom dia.

Somos já os poemas em papel amassado nos bolsos dos poetas. Versos que não saem do caderno. Vergonha do que fomos. Entraremos para as estatísticas e seremos mais uma troca de nome no cartório. Dessa vez   sai um nome da pele.

Seremos a dúvida dos amigos na hora dos futuros convites, pois eles terão receio dos nossos próximos encontros. Vamos dividir todos ao redor em dois times. Caberemos separados no mesmo mundo.

Iremos à forra na festa do estranhamento, dançaremos a sincronia da desintoxicação. Seremos para nós o que prometemos nunca ser. E fim.

 
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domingo, 28 de agosto de 2016

SPAM



Abri minha caixa de e-mails. 42 recebidos na pasta de spam. Ninguém confere a caixa de spam por que a maioria dos provedores já disponibiliza o descarte automático e periódico desses e-mails. Mas eu fui lá, bateu curiosidade.

Um e-mail de um site de compras coletivas me sugerindo uma viagem para Maragogi-AL e em Porto de Galinhas-PE, cairia bem demais. Outro e-mail sugerindo fazer um plano de saúde, isso preciso. Próximo e-mail tinha o título “Estimulante natural, aumente sua fertilidade’’ - alguma indireta? Próximo: “Satisfazer a parceira é o segredo’’, próximo: “Surpreenda sua parceira na cama” - ok ok, parou.

Um dos e-mails oferecia um curso de inglês, e outros tantos de seguro de vida novamente. A depender da minha caixa de spam eu preciso viajar, falar inglês, praticar sexo e ter um seguro de vida. Interessante esse roteiro.

Mas existe algum sentido a ser reciclado na minha lixeira virtual? Acredito que não. Ninguém filtra o que vai pro lixo, no máximo a gente separa o que pode ser reciclado e guardar nas lixeiras coloridas.

Conversas que ouvimos nos ônibus, mensagens que chegam na janela errada do aplicativo, bilhetes esquecidos em livros velhos, amores que chegam por acaso e não nascem. É sempre uma surpresa lidar com aquilo que não é pra gente, mas chega na hora ou do jeito errado.

Descartar é muito simples. Limpamos a caixa de e-mail, excluímos números da agenda, bloqueamos pessoas nas redes sociais, mas dentro da saudade cabe lembranças que nem o melhor processador do Google dá conta.

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domingo, 21 de agosto de 2016

acordo




vou gritar pelas ruas
feito carro fumacê em fim de tarde
que toda essa patifaria
de se estar alheio é
pura conversa fiada
se tremem as pernas
se suam as mãos
se falta verbo e
o riso é sem jeito –
já se pode entender
que o seu órgão central pulsante
e o órgão central pulsante de
outra pessoa já fizeram o tal acordo
que levará vocês a se
olharem bobos, dobrar ponteiros e
quilômetros em um final de
domingo – dedos nos dedos –
a prometer um pouco de tudo

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sexta-feira, 22 de julho de 2016

DA VOLTA


Eu aqui com meus demônios estou me perguntando
o que lhe trouxe novamente
e o que me trouxe novamente dentro desse
nosso aconchego tão estranho
que eu já não sei se você é mais aquela
na verdade, eu já me alegro por você não ser mais aquela
e eu também nem sou mais aquele

os demônios também parecem que já não são
mais tão demônios, juro que se você
forçar os olhos vai enxergá-los com harpa na mão
direita e a esquerda folheando uma
revista da avon e esfregando os dedos naquela
parte que vem com amostra do perfume

quase do mesmo jeito que eu esfrego o meu nariz
na sua nuca e deixo morrer nos seus cabelos


...

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Entrevista com Lanuk Nagibson - @poetacalado

Na 2ª entrevista do blog apresento Lanuk Nagibson, o escritor do blog Poeta Calado e do instagram @poetacalado.



Ele continua lá,
Nunca saiu do seu lugar,
Mas ela que responde,
Ela, invasora dele.
Ele tentou se achar,
Ela veio como resposta.
Ele tinha feridas,
Nela veio a cicatriz.
Ele queria ser amado,
Ela espera o amor
Em cada esquina por aí.
Entre ele e ela,
há uma brecha,
existe fé.


- poema Travesti.
 

Lanuk, tem 23 anos, é Natalense, estudante do curso de letras na UNP, atua como professor de língua Inglesa e é missionário. Acerca de si mesmo diz: "...tenho uma personalidade muito estranha. Os psicólogos e os testes de personalidades dizem que sou melancólico. Eles não mentem.". Será que não mente?

Procurando aproveitar o lado bom da melancolia, Lanuk busca desenvolver a sensibilidade com a vida, o olhar e a empatia com o outro. Através da intensidade em suas amizades e amores, o poeta almeja fugir do que entende como lado"ruim"de sua personalidade. Nada muito diferente da sina que persegue a maioria dos poetas: lutar contra sua natureza expurgando nos versos os próprios demônios.

Confira abaixo um pouco do mais desse poeta que se diz calado, mas tem muito a dizer:




O que gosta de fazer, além de escrever?
"Gosto de ler. Pode parecer meio clichê, mas é verdade. Como tenho o sonho de conhecer o mundo, porém falta uma vontade ($), eu costumo ler para fugir da minha realidade e ir viver outras histórias, ser outras pessoas em outros lugares. Também gosto muito de estar com meus amigos, seja para viajar juntos ou simplesmente para virar a noite conversando besteira, comendo pipoca e vendo filme. " 

De onde veio o interesse pela leitura e pela escrita?
"Veio de mim. Meus pais sempre me incentivaram a ler, porém nunca compravam livros para mim. No ensino fundamental, eu tive uma professora de Língua Portuguesa que trabalhava muito a questão da leitura por meio de um projeto chamado Roda de Leitura.  Cada aluno deveria escolher um livro e apresentá-lo para a classe, com isso eu era obrigado a ler e com o tempo se tornou mais que uma obrigação, virou paixão. Quanto a escrita, eu sempre fui muito inseguro quanto aos meus sentimentos e gostava muito de música, por isso eu escrevia ou como uma forma de desabafo do que eu sentia ou como uma tentativa de compor alguma canção, com o passar do tempo a coisa foi ficando seria. Comecei a compartilhar meus textos com meus amigos e recebi o incentivo para escrever e publicar o que escrevia. Por isso estou aqui hoje." 

O que você costuma ler?
"Eu não me privo de nada. Leio de tudo! Vou do Rio Grande do Norte aos países europeus e africanos. Leio bastante desde os versos loucos de Manoel de Barros, as poesias desenhadas nos grafites e escritas nos versos de Sinhá, os romances do Jô Soares, os contos do Marcelino Freire curto muito as poesias fofinhas do Pó de Lua e do Eu me chamo Antônio, me choco com a escrita visceral de Conceição Evaristo, com o profundo sentimentalismo em Florbela Espanca e a complexidade de Fernando Pessoa e seus heterônimos. Confesso que tenho um xodozinho com os escritores africanos de língua portuguesa, como Mia Couto, Paula Tavares e Agualusa. Ultimamente tenho lido um livro de poemas de uma escritora polaca chamada Wisława Szymborska, estou fascinado pela sua escrita, é bem diferente."

Para você o que é poesia?
"Como diz Octávio Paz: A poesia é um organismo verbal produzida pelo silêncio. A verdadeira poesia nos choca, porque nós a compreendemos, mas não sabemos como explicá-la, precisamos sempre voltar a ela, porque a verdadeira poesia é como uma fenda, possui um lugar que diz tudo, mas é preenchido pelo nada, sempre há algo para dizer. Fico triste porque vivemos em uma sociedade que não tem paciência para ler poesia e se deliciar com suas incógnitas, acho que por isso temos poetas fazendo poesias tão ralas."

Na sua opinião a pessoa nasce poeta ou aprende a ser? 
"Acho que ninguém nasce nada. Tudo o que somos, nos tornamos."

Quais os projetos que você participa atualmente?
"Procuro sempre participar de movimentos sociais e religiosos que estejam ligados as pessoas, principalmente aquelas que estão à margem da nossa sociedade, como os mendigos, as garotas de programas e jovens em situação de risco."


O amor é a chama
que duplamente arde
dentro do meu peito

Arde
porque dói
dói
porque é amor

Amar é sofrer
padecer
é o tempo não eterno
a carência e desejo
(do que tenho e não possuo)
é o motivo da tristeza
que tanto me alegra

Brota
como espinhosa flor
que cerca
arrocha
aperta
espreme
fura
sangra
o meu coração

O amor
é aquela flor de sangue:
bela pra quem vê
espinhosa para quem toca.



Parte da nossa entrevista foi gravada. Ouça abaixo:


 Você pode conhecer a produção do Lanuk através dos links:

Blog: Poeta Calado
Instagram: @poetacalado


...

quarta-feira, 13 de julho de 2016

quarta-feira, 6 de julho de 2016

terça-feira, 5 de julho de 2016

TAL

tal qual sexo
a poesia
não precisa
só de pênis
e boceta
para que alguém
goze
e se satisfaça dela.
vai da boa
mão
ou da boa língua.
É mais necessidade
do que precisão.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

ACASO

Aquele caso que tínhamos
acabou naquela casa,
por acaso.

Que coisa!

Na mesma casa
se dará um causo,
descalço.

Lá se fará o ocaso,
desse nosso caso,
que ora caça,
ora não casa.

terça-feira, 28 de junho de 2016

VOCÊ VAI PASSAR



Você vai passar.

Sim. Quando menos esperar você vai passar. Vai porque já não haverá mais espaço aqui. Não digo que é porque estarei com outra pessoa, não vai ser por que eu fui para um intercambio no Canadá. Não vai ser porque eu precisei me mudar para Porto Alegre por conta da empresa. Não vai ser porque eu resolvi escutar os conselhos dos meus amigos. E também não vai ser porque eu cansei de ficar na bad trip tomando aquela cerveja da garrafa azul com salgadinho sabor churrasco.

Você vai passar e pode nem doer tanto quanto eu acho que vai doer. É culpa dessa mania de pensar que só existe você no mundo, sabe? Isso é um efeito colateral de quem está se adaptando a novas doses.

Não sei bem os motivos, mas eles abrirão a porta dessa casa para eu sair correndo pela rua que nem criança quando ganha bicicleta no natal. Sei que eu não vou precisar ler nenhum livro do Augusto Cury para saber que você já passou. Vai passar igual aquele ônibus que eu sempre perco quando estou dobrando a esquina e que eu perdi por que estava esperando o celular vibrar pra ver se era você me mandando foto do seu cabelo escovado. E quando eu me dou conta estou sentado na parada prometendo que amanhã eu faço diferente.

Não vou cravar quando vai ser por que não fiz aquele curso on-line de leitura de tarô que você tanto me indicava. Eu não sou tão desleal assim, mas você vai passar. Na velocidade de quem estará ocupado com qualquer outra coisa mais urgente que você, na despreocupação de lhe dizer bom dia e boa noite, no desleixo de esquecer a data que você faz aniversário, na decisão de não responder suas mensagens e talvez lhe bloquear, por que você vai passar sim.

Eu vou perceber isso dia após dia (como já tem sido), só que você vai se dar conta de uma vez. É a diferença.

AINDA


Ainda me encanta
buscar seus olhos
escondidos
quando teu riso
aparece.

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segunda-feira, 27 de junho de 2016

A OUTRA QUADRILHA

2012
 
Otávio amava Amélia que passou a amar Bernardo
que pensava amar Alzira que parecia amar Norberto,
que não amava muito bem.
Otávio abriu uma boate GLS, Amélia voltou para a igreja,
Bernardo montou uma banda de forró,
Norberto tentou o suicídio no bar da esquina e Alzira
casou-se com Suzana de Alcântara Machado
que não tinha entrado na história.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

PASSA


e depois de quase 400 poemas
eu percebi que a minha poesia
é uma poesia bem fodida
daquelas que eu só falo pros
meus amiguinhos de escola
ou de prosa
e que falar só de si mesmo
é tão pequeno
e que falar nó de si mesmo
é tão veneno
e que é tão fácil
rimar pequeno com veneno
que o que eu queria mesmo
era que essa
poesia que eu reclamo
fosse mais comestível
pro homem maltrapilho que
p    a    s    s    a
e pra mulher que eu mau
olho nos olhos
na pressa de voltar pra
casa.


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quinta-feira, 16 de junho de 2016

DESPERTADOR



Todo dia o meu despertador toca três vezes para que eu me dê conta que preciso levantar. Às 8h o primeiro susto, 10 minutos depois eu já estou mais consciente do esforço de deixar a cama, as 8h20 eu não posso mais fugir — é hora de levantar.

Tem coisas que a gente não entende de primeira. Não se desiste assim tão rápido de uma coisa que se deseja. Abrir mão é assumir a covardia de insistir. A teimosia ajuda e atrapalha na mesma proporção perigosa.

Você sabe que não deve insistir naquela história sem pé nem cabeça, mas ainda sim, insiste. Sabe que não deve dar confiar depois de tantas decepções, mas ainda dá. Sabe que está cansado de esperar que o outro tome a decisão de ficar com você, mas ainda espera.

A gente gosta de acreditar na capacidade de aguentar qualquer coisa. Mas, na verdade, não aguenta. E precisamos reconhecer isso, por que no momento que a gente insiste naquilo que não devia vamos morrendo por dentro, vamos nos afogando nas próprias concessões. E no fim de tudo, o pior é descobrir que isso não aconteceu silenciosamente.


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