quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Coitado do Aldovandro!


No conto ‘’O colocador de pronomes’’, de Monteiro Lobato, o jovem Aldovandro Cantagalo deseja namorar Laurinha, a filha mais bonita do coronel Triburtino Mendonça e escreve-lhe um bilhete que dizia o seguinte:

‘’Anjo Adorado! Amo-lhe...”

O coronel ao descobrir o bilhete, indaga o rapaz sobre suas intenções e diz que agora ele tem que casar e chama a Do Carmo (filha feia). O jovem fica surpreso e o velho diz:

... Você mandou este bilhete à Laurinha dizendo que ama-”lhe”. Se amasse a ela deveria dizer amo-”te”. Dizendo “amo-lhe” declara que ama a uma terceira pessoa, a qual não pode ser senão a Maria do Carmo.

Resultado?
Aldovandro teve que se casar com a feiosa da Do Carmo.



Viu a conseqüência de uma palavra mal colocada?



segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Frase solta #10


"Podemos às vezes ofender com palavras, mas também podemos ofender muito mais com o silêncio. Nenhum insulto pronunciado jamais feriu tanto como a ternura que esperamos e não recebemos"

(Jan Struther)

sábado, 5 de dezembro de 2009

Congruências

Sou poeta, não nego. Sou músico. Escritor também. Sou Clown, por que amo. E acredito que certos artistas podem caminhar livremente pelo vasto mundo das artes. Me identifico muito com a pintura e as artes plásticas.

Eis aqui meu primeiro quadro. É o primeiro e singelo passo nesse caminho das telas.

Cores


Por ter surgido de maneira espontânea, a primeira idéia que me veio foi o amor, expresso num coração meio sem métrica.

O que acharam?



quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Menina voadora

Brunno Soares
Natal, 23 de Novembro de 2009



A Verônica Rodrigues, a Vevé


No sonho de voar,
o rodopio no salão,
dançando a bailarina no céu imaginação.

Pairando feito bolha,
que nem palavra sibilante,
corpo e mente sã
somente vôo de águia falante.

Voa, voa...
Avoada invenção,
cruza o léu.
Voa feito véu pra sua anunciação.

Flutua menina,
sobe no lenço
soberbo silêncio
sobra ciranda,
coco de roda no céu.

Voa, vai, vem,
voa...
atoa.

sábado, 28 de novembro de 2009

A falta que você me faz


...

Hoje eu tô com aquele típico desânimo de fim de viagem. Mas não foi o ''chegar em casa'' que me derrubou e sim, a falta dela que eu respiro em todo lugar. Na rotina sem graça, no ritual não há sentido.

Levantar, escovar os dentes, sentar à mesa, partir o pão e assar com queijo e presunto já não tem tanto sabor. Não me importa o sabor do suco se eu não tenho seu copo pra levar à pia depois.

Outros olhos não tem beleza, não tem cor nem tamanho. Por que o mar dos meus desagua no universo que há nos teus.

As músicas que ouço não me interessam se não for alguma da trilha sonora da casinha. E qualquer casa não se compara àquela na montanha com lareira e tapete bem fofão.

Essa nova saudade me espanca e traz lágrimas de criança na janela de um ônibus frio enquanto o seu maior sonho acena e brinca na plataforma amando com mímica.

O palavra do pai, o abraço da mãe, o silêncio do irmão, a serenidade da caçula eu também já não tenho mais. O banco do carona de qualquer outro carro é feito de prego por que já não é você quem me leva.

( ... )

Eu vou brigar com o calendário agora e com os compromissos espremendo o tempo pra provar da vida toda em três dias ou num feriadão. Vou contar os dias pro natal só porque eu quero você de presente.

E eu vou plantar um pé de laranja lima no meu coração todo dia só pra conversar com você. Também vou dizer pro Buck Jones aquela frase pra ele aprender de uma vez por todas que as planícies e campinas dele não estão com nada perto do nosso lugar... que agora é todo lugar.

E eu vou mandar abri o bosque, enfeitar as àrvores e pedir pros amigos amarrarem as latinhas. Vou brincar de ser um fauno e fugir com você num cavalo branco voador por que o que a gente sente só cabe nas coisas mágicas.

E não vai ter ninguém pra dizer que é errado por que a minha mente já não vai estar mais aqui pra ouvir. Eu vou repetir o seu nome como uma reza. Eu vou pintar seu rosto na parede do quarto e fingir que janeiro já chegou.

Eu vou ficar de gravata sempre que você pedir. Eu não vou fingir que não está doendo, mas também não vou me entregar. Fantasma algum vai me assustar por que você está comigo e pega na minha mão.

Eu vou deixar a sua falta me ferir, mas eu vou sarar depois, e depois e depois por que eu já não consigo mais ser fraco.

E eu vou seguir acreditando nesse amor. Vou ensaiar as nossas músicas. Vou escrever poesias com o seu cheiro. Vou desenhar seus lábios e ouvir a respiração.

E quando a saudade bater e vou dizer em flor: Jemima!

... do nosso amor a gente é quem sabe Pequena.



terça-feira, 24 de novembro de 2009

Amor gramático - Blogagem Coletiva Néctar da Flor


Brunno Soares


José Matias era um homem metódico, decidido, sem meias palavras, na verdade, costumava dizer ser um ‘’homem de palavra inteira’’. Pobre, pra lá dos cinqüenta e analfabeto, aprendeu a escrever pouco e ruim por conta própria. Era uma mistura de inocência e malícia. Afinal, assim que aprendera a levar a vida desde cedo.

Por não ter ofício, José Matias orgulhava-se de ter tempo de sobra, ao contrário de tantos, e quando isso acontecia era o seu lado malicioso que falava mais alto. Sua maior frustração era a de não saber ler, por isso inventou de estudar mesmo depois de ter a vida feita. Matriculou-se na escolinha da cidade a fim de assistir às aulas noturnas da professora nova, recém chegada da capital. José não fazia idéia que a sua disposição para o saber lhe traria o maior desengano de sua vida.

Maria da Glória tinha voltado pro interior por conta das doenças de seu velho pai, Ananias. Professora jovem, amante da arte de ensinar, exímia na retórica, educada e muito prestativa, assim era a jovem professora. Maria da Glória ofereceu-se para aplicar o curso de alfabetização de adultos no período noturno na escolinha da cidade. E para sua alegria a sala estava sempre cheia e florida.

José Matias não faltava uma aula se quer, em parte por querer dominar a arte da escrita e da leitura, em parte para dedicar olhares e palavras poéticas à Professora Glorinha, por quem ingenuamente se apaixonara. Já na primeira aula, Matias fez as honras da sala:

- Uma alegria robusta expandiu meu coração por saber que nossas noites serão ‘’belizificadas’’ com a sua presença, Professora Glorinha.
- Nossa, quanta gentileza! Como se chama?
- A humildade que lhe preza a boniteza tem por pronome José Matias – falava de pé, posando como um chefe de guerra e na pompa de político eleito.
- O prazer é meu, Seu José – levantou, foi até ele e deu-lhe um beijo na face.

O ‘humilde’ sentou-se e ali mesmo ficou extasiado por conta do beijo que para a professora foi como beijar toda a turma. Para ele, foi como a alegria de José ao ouvir de Maria que estava grávida do Espírito Santo.

A cada aula José procurava chamar atenção da Professora para si. A tormenta se dava na base das palavras. Afinal, eram elas que uniam o ofício de Maria da Glória às pretensões literárias e amorosas de José todas as noites.

- Professora?
- Sim, Seu José. Alguma dúvida?
- Todas. Tanto as “existiveis” quanto as “extraterríveis”...
- Pois bem, qual a dificuldade na tarefa?
- O que dificulta é a sua inesperada beleza.
- Como assim, Seu José?
- Vamos deixar as “formalizações” de lado, Professora. Eu sei que o que tem no seu coração esborra dentro do meu.
- Eu não estou entendendo...
- É amor, senhorita! Estou “amortecido” por você!
- Ora, Seu José! E eu pensando que era algo sério! O senhor e suas brincadeiras, não é? Sempre querendo divertir a turma...
- Glorinha – falou segurando-a pelo braço – é realístico e verídico este sentimento.
Maria da Glória afastou-se e disse: - Tome jeito Seu José, tome jeito!

Por ser um homem decidido e teimoso, José Matias não desistia do sentimento que nutria pela adorável Maria da Glória. Sempre que tinha a chance destilava suas palavras ao novo amor de sua vida. José, era viúvo, e sua falecida esposa era tão ignorante quanto ele. Não sabia ler nem escrever, mas bordava, cozinhava e ‘’fazia menino’’ como ninguém. Tiveram seis homens e duas mulheres que, José sabiamente batizou assim: o primogênito era Agostinho, em homenagem ao santo; Alberto, por conta de Einstein; Isaque Nilton, Tomás Edson, Leonardo Davi, por causa do pintor italiano, as duas moças, Catarina e Cecília, nomes escolhidos pela mãe, que era devota das santas, e o caçula, Lavoisier! Esse era o orgulho de José Matias, ter todos os filhos criados.

Maria da Glória nunca passara por uma situação inusitada com aquela, apesar de não ter uma longa carreira, era um tanto embaraçoso ter alguém com idade de sobra para ser seu pai apaixonado por ela, ainda sendo um aluno seu.

Quanto mais o tempo passava, José Matias aprendia a dominar as letras ao passo que seu coração se apertava por sonhar com um amor impossível. Até que chegou o dia em que tomou uma decisão que não poderia dar em dois caminhos que não fossem ganhar o coração de Maria da Glória ou ganhar um pedido de afastamento das aulas.

Qual não foi a surpresa de Maria da Glória na sexta-feira, depois de notar a falta de José Matias durante toda aquela semana, ao chegar à sala e encontrar uma carta e sobre ela uma maça.

Dizia assim o metódico documento:

“Querida Professora Maria da Glória...

Escrevo esta carta mortífera para tratar de todo esse rebuliço sentimental, pois a minha inglória foi “amortecer” meu coração em sua figura bélica. Sou iletrado e invertebrado na arte das palavras, mas minha “sabiologia” de vida me ensinou que as coisas que um coração quer nem sempre acordam com o que se acontece.

A senhora vem de um mundo estratosférico e eu? Vivo num mundo “merdonho” e raquítico e bem sei que toda essa sua “sabiografia” não é para gente como eu. Não foi minha intenção ser tão fluvial, mas não consegui prender esse boi brabo chamado “amor” dentro das cercas do meu coração.

O certo mesmo é que eu não vou lhe perturbar. E deixo a senhorita livre para ter paz nos seus ofícios do saber. Minha decisão “napoleônica” é esta: não lhe vendo, não lhe terei sentimentos. Não aprendendo a escrever melhor, não terei outras palavras para lhe dar o meu carinho literário.

Estou concentrado nisso. Esse amor gramático não me trouxe nenhum verbo ativo.

Muito grato pela sua atenção divinal.

José Matias, intelectualista.”

Maria da Glória leu a carta, riscou a o único nome José na lista de chamada. Deu uma gargalhada e escreveu no quadro: Prova surpresa!



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Este post integra a primeira Blogagem Coletiva Néctar da Flor, promovida pela Rebeca e pelo Jota Cê do Néctar da Flor.


domingo, 22 de novembro de 2009

Hoje eu sou essa música # Último romance

Por que na vida estamos sempre aprendendo a voltar a acreditar no amor, na própria vida e nas outras coisas boas. Por essas e outras Hoje eu sou essa música 'Último romance', dos Los Hermanos.

Por sua causa também, minha Pequena.




Ultimo Romance
Los Hermanos
Composição: Rodrigo Amarante

Eu encontrei quando não quis
Mais procurar o meu amor
E quanto levou foi pr'eu merecer
Antes um mês e eu já não sei

E até quem me vê lendo o jornal
Na fila do pão, sabe que eu te encontrei
E ninguém dirá que é tarde demais
Que é tão diferente assim
Do nosso amor a gente é que sabe, pequena

Ah vai!
Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
Afim de te acompanhar
E se o caso for de ir à praia eu levo essa casa numa sacola

Eu encontrei e quis duvidar
Tanto clichê deve não ser
Você me falou pr'eu não me preocupar
Ter fé e ver coragem no amor

E só de te ver eu penso em trocar
A minha TV num jeito de te levar
A qualquer lugar que você queira
E ir onde o vento for
Que pra nós dois
Sair de casa já é se aventurar

Ah vai, me diz o que é o sossego
Que eu te mostro alguém afim de te acompanhar
E se o tempo for te levar
Eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar




Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça!
Quem tiver coração pra sentir, sinta!






>>> Quer baixar a música, clica AQUI

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Rush


Brunno Soares
João Pessoa, 16 de Outubro de 2009







Luz verde na parede da casa,
o jardim redondo
e a mulher,
passando
faróis.

É a cidade respirando na rotina do humano,
humano de máquinas,
máquinas na rotina.

A náusea de ver passar tantos pés apressados,
poesia consta o que não deveria constar.

Luzes acima, na frente,
luz importada no carro do lado.

Depois da curva à direita
é a minha casa.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Poesia de ninar



Brunno Soares
João Pessoa






Deita-te sob os lençóis brancos
aspira e respira o pó feito dos sonhos
adormece como fazem os anjos
é teu sonho
é teu pó
é teu dó
dorme então recostada.

recortada nos retalhos do pensamento e da razão
a poesia que te adormece
é aquela que me levanta
em suma, é a minha sensação.

E o sono é então acordar-se para si
E o sonho é doar-te para mim.
E o tombo é jogar-me em ti.

Sonhas. Sonhas que eu te tenho
venhas e eu te sonho,
repousada em meu peito
as minhas mãos no teu cabelo,
e mais nada.

Hoje eu sou essa múscas # Só nós dois

Quem tem conhecimento completo sobre o amor? Ninguém. Ama-se de várias formas, por indefinidos motivos, por inúmeras necessidades. Deixa-se de amar tão quão ama-se novamente. Para que uma amizade torne-se um amor a linha a se cruzar é invisível demais. Amar amando...



Por isso, hoje eu sou essa música ''Só nós dois'', do Detonautas.




Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça!
Quem tiver coração pra sentir, sinta!


Só nós dois
Detonautas


Agora somos só nós dois
E não temos que provar pra mais ninguém
Amor, eles não conseguem perceber como é real
Que a gente se encante com alguém, assim...

Existem mil mistérios que renovam os nossos planos
E seguimos acreditando nesse nosso amor
E nada do que digam vai mudar
O que pensamos deixa estar
E agora vamos, já chegou!

Meu coração vai te mostrar
Que esse amor não precisa esperar não precisa esperar!



:)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Organizado?


Organizado? ... é, um pouco!
Metódico? ... ao extremo!


''Abre aspas'' - 3ª Blogagem Coletiva




A 3ª edição da Blogagem Coletiva ''Abre aspas'', promovida pelo blog Teorias impossíveis é uma iniciativa para tornar a blogosfera mais poetica. Você pode conferir quem está participando clicando aqui. Eu trago dois poemas pra contribuir com a blogagem:


Desejo por Deus
Eraldo Joseph

Pernambuco, 25 de Agosto de 2006

Basta de ilusões banais e sanguinárias,
de instintos fúteis e cinzas aromáticas,
de mascaras interiores e restos de séculos!

-Fantástico fenômeno fictício formoso
Frustrável fel flácido; ferida frustrável...
Nos lagares cristalinos, quebrantadas são, as imagem!
Mergulho meus olhos em meu corpo honroso,
A morte em meus nervos, em meu fel...

Deus, quais são para ouvirdes de mim
os clamores de um errante constante
E os que choram ao sepulcro de carmesim,
invade-me e faze-me entregue e amante!

Sou como estas inválidas moedas
ou semelhante a este anel esquecido!

E não suportas meus orgulhos cegos...
Tu somente me queres, a voar delirante
E em vosso interior, sonhar os teus sonhos...


Eraldo Joseph é um amigo que reside em Pernambuco, e tem um blog onde posta seus textos e poesias.


[ ... ]

Pressentimento
Adelle de Oliveira
Este poema integra o livro Álbum de versos antigos (2002),
da mesma autora

Amor? talvez foi mais do que piedade
que eu te inspirei assim triste e chorosa,
pelo caminho escuro da orfandade
a caminar descrente e desditosa.

Sonha de certo e santa ingenuidade
supões amor, um sonho cor de rosa
que morrerá depois na claridade
de outra visão mais brancas e mais radiosa.

E esquecerás no venturoso encanto,
minh'alma simples, comovida, em pranto,
e que em tu'alma essa impressão deixou.

E meditando, a sós, no que sentiste,
rindo verás, então, que te iludiste
e que o meu coração não me enganou.


Adelle de Oliveira, educadora, foi poetisa. E sua forma de dizer era a que melhor havia no tempo em que viveu, de 1884 a 1969


Feliz por poder contribuir!



sábado, 7 de novembro de 2009

Rato



Brunno Soares
João Pessoa, 06 de Novembro de 2009

Após ver o fatídico atropelhamento
de um roedor.




Pobre rato que nem a roupa do rei roeu,
pobre rato que nem a calha da casa desceu,
pobre rato que nem do queijo suíço comeu,
pobre rato que nem tão rápido assim correu.

Tinha tantos planos contra-gatos,
mas veio a 'ratoeira móvel'
e tão jovem
morreu.



[ ]

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Ou isto ou aquilo





Postado mediante autorização prévia do autor.

Sobre o autor:

Ceó Pontual é recifense e designer. Trabalha fazendo trabalhos de ilustrações para agências de publicidade, além de desenvolver um trabalho para a loja de móveis e decoração infantil Diminuti.

Vale a pena conhecer o trabalho dele! É lindo.

Frase solta #9

"Veja meu sorriso, ai então, julgue minha felicidade"

(Brunno Soares)

sábado, 31 de outubro de 2009

Janaína


Já brigamos muito nessa vida; sentimos saudades, xingamos, brigamos, escrevemos cartas, emails, brigamos, demos conselhos, brigamos, fizemos as pazes, brigamos de novo! Amizade boa é aquela que sempre pode começar de novo [e de novo, e de novo], mesmo quando a distância ou a rotina dizem não!

Dia 31 de Outubro é aniversário dela, a dona do blog Mais Um. A minha primeira flor.

Aqui, a música dela:







Parabéns para você, Flor morena.


Versos à boca da noite


Carlos Drummond de Andrade


Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva...
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.

Escreverei sonetos de madureza?
Darei aos outros a ilusão de calma?
Serei sempre louco? sempre mentiroso?
Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?

Há muito suspeitei o velho em mim.
Ainda criança, já me atormentava.
Hoje estou só. Nenhum menino salta
de minha vida, para restaurá-la.

Mas se eu pudesse recomeçar o dia!
Usar de novo minha adoração,
meu grito,minha fome...Vejo tudo
impossível e nítido, no espaço.

Lá onde não chegou minha ironia,
entre ídolos de rosto carregado,
ficaste, explicação da minha vida,
como os objetos perdidos na rua.

As experiências se multiplicaram:
viagens, furtos, altas solidões,
o desespero, agora cristal frio,
a melancolia, amada e repelida,

e tanta indecisão entre dois mares,
entre duas mulheres, duas roupas.
Toda essa mão para fazer um gesto
que de tão frágil nunca se modela,

e fica inerte, zona de desejo
selada por arbustos agressivos.
(Um homem se contempla sem amor,
se despe sem qualquer curiosidade.)

Mas vêm o tempo e a idéia do passado
visitar-te na curva de um jardim.
Vem a recordação, e te penetra
dentro de um cinema, subitamente.

E as memórias escorrem do pescoço,
do paletó, da guerra, do arco-íris;
enroscam-se no sono e te perseguem,
à busca de pupila que as reflita.

E depois das memórias vem o tempo
trazer novo sortimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e não saibas se a vida é ou foi.

Esta casa, que miras de passagem,
estará no Acre? na Argentina? em ti?
que palavra escutaste, e onde, quando?
seria indiferente ou solidária?

Um pedaço de ti rompe a neblina,
voa talvez para a Bahia e deixa
outros pedaços, dissolvidos no atlas,
em País-do-riso e em tua ama preta.

Que confusão de coisas ao crepúsculo!
Que riqueza! sem préstimo, é verdade.
Bom seria captá-las e compô-las
num todo sábio, posto que sensível:

uma ordem, uma luz, uma alegria
baixando sobre o peito despojado.
E já não era o furor dos vinte anos
nem a renúncia às coisas que elegeu,

mas a penetração no lenho dócil,
um mergulho em piscina, sem esforço,
um achado sem dor, uma fusão,
tal uma inteligência do universo

comprada em sal, em rugas e cabelo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Consolo na Praia


Carlos Drummond de Andrade


Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Rema


Brunno Soares
João Pessoa, 29 de Outubro de 2009


para Renan Ramalho




Rema de uma margem a outra, rema.

E dos remos a força que rasga o vento
é o teu braço, é o teu laço, rema.

Rema, pois assim moverás o mundo
para trás dos teus remos.

Nobre Barqueiro,
rema no imperativo,
rema no impróprio,
no imperfeito passado.

Rema no futuro lisonjeiro,
rema no embriagar traiçoeiro,
rema com tua voz e teus acordes,
posto que a outra margem há o teu cais,
então rema.



[ ]

No último dia 25, este meu amigo magricelas, dono do blog Incompleto e sem título, contornou mais uma vez a praia e completou mais um ano de vida. Este é meu presente [atrasado] para ele. Felicidades a você Barbalonga!


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Hoje eu sou essa música # Paciência

Em algumas situações da vida eu não consigo ser paciente. Paciência é uma virtude mesmo. Estou aprendendo a cultivá-la. É um caminho árduo, eu sei.

Por isso, hoje eu sou essa música ''Paciência'', do Lenine.





Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça!
Quem tiver coração pra sentir, sinta!



Paciência
Lenine
Composição: Lenine e Dudu Falcão


Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...

A vida não pára..
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